Ultimamente, ando numa maré de azar surreal com os livros que escolho. E tudo por culpa da minha mania maravilhosa de não ler sinopse, não olhar o gênero e não pesquisar absolutamente nada antes de me jogar na leitura.
Com essa minha preguiça, eu li Academia Arcana, tô no meio de Corte de Espinhos e Rosas e quase terminando O Abismo de Celina.
E o que esses três têm em comum? Nitidamente, são livros focados no público feminino — seja a galera jovem ou mulheres adultas querendo um romance de tirar o fôlego. Sem querer generalizar, óbvio, é só uma piada, mas eu consegui a proeza de engatar três leituras seguidas com cenas hot e protagonistas femininas que podiam ser incríveis... mas passam a história toda apaixonadas pelo "vilão".
E talvez seja justamente isso que esteja me incomodando mais nessas três obras. Não o romance em si, porque eu não tenho absolutamente nada contra uma boa história de amor. O problema começa quando parece que a personagem poderia estar vivendo algo muito mais interessante, mas em algum momento o autor decide que a prioridade dela precisa ser se apaixonar pelo homem mais complicado, misterioso e emocionalmente indisponível que existe naquele universo.
É quase uma regra: quanto mais problemático o homem, maior parece ser a chance de ele ser o interesse amoroso.
Essa sequência de leituras me fez refletir: de onde vem essa obsessão de todo mundo hoje em dia pelo tal do vilão incompreendido?
Não é só um clichê bobo do BookTok, vai além. Desde os tempos dos poetas românticos, a gente tem uma queda por aquilo que assusta e atrai ao mesmo tempo. O vilão bonitão é a versão moderna do bad boy clássico: aquele cara sombrio, meio sem moral, que não oferece uma vida calma, mas entrega uma montanha-russa de emoções.
Isso me fez pensar um pouco sobre essas protagonistas. Apesar das diferenças entre as histórias, existe algo curioso em comum: todas poderiam ser muito mais fascinantes se a trama não colocasse o romance como uma espécie de centro gravitacional ao redor do qual todo o resto precisa girar. São personagens que têm conflitos e trajetórias próprias, personalidades que poderiam ser exploradas e, em alguns casos, situações que renderiam um enredo inteiro sem precisar colocar um homem no meio.
A graça disso tudo não é ter topado com romance e cena quente por acidente, mas perceber como a gente é fisgado por essa fórmula. Queremos ver mulheres poderosas, mas a indústria sabe que, se colocar um vilão sarcástico e misterioso no meio, a gente esquece até a história principal pra passar pano pra ele.
E eu fico pensando em como isso funciona tão bem não apenas nos livros, mas na própria maneira como enxergamos histórias de amor. Existe uma tendência enorme de confundir dificuldade com profundidade. Se uma pessoa é fechada, misteriosa e difícil de entender, automaticamente parece que existe algo muito profundo escondido ali. Se ela trata todo mundo mal, mas trata a protagonista um pouco melhor, pronto: temos uma conexão especial. Se ela tem um passado trágico, todas as atitudes questionáveis começam a ganhar uma justificativa.
É uma ideia bastante poderosa, porque existe algo de especial em acreditar que fomos escolhidos justamente pela pessoa que ninguém consegue alcançar. O problema é que isso funciona muito melhor em um livro do que na vida real.
Na ficção, você sabe que aquele homem misterioso provavelmente vai revelar um passado triste, vai se apaixonar pela protagonista e, depois de algumas centenas de páginas, talvez até aprenda a ser uma pessoa minimamente funcional. Na vida real, alguém que trata todo mundo mal continua sendo alguém que trata todo mundo mal — mesmo que, eventualmente, decida tratar você bem.
E acho curioso como a fantasia consegue transformar algumas dessas coisas em romance.
Ainda assim, existe uma certa graça em escolher um livro sem saber absolutamente nada sobre ele. Às vezes você encontra exatamente o que esperava; às vezes, algo completamente diferente. E às vezes você descobre, depois de centenas de páginas, que aparentemente comprou uma fantasia sobre magia, monstros e reinos esquecidos, quando na verdade comprou a história de uma mulher que vai passar boa parte do livro tentando descobrir se o homem mais problemático daquele universo também gosta dela.
E, sinceramente, eu ainda não sei qual dos três está me enganando mais.
O pior é que eu continuo lendo.
Talvez essa seja a verdadeira parte trágica dessa história.

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