Separados pelas Estrelas é muito mais do que uma animação de romance


Existem histórias de amor que falam sobre encontros. Outras falam sobre desencontros, algumas, porém, parecem querer discutir algo ainda mais difícil: e se duas pessoas realmente destinadas uma à outra simplesmente não pudessem ficar juntas?

Eu assisti a nova animação da Netflix, ela parte de uma ideia que, à primeira vista, parece familiar. O amor impossível, o destino, duas pessoas ligadas por algo maior do que elas mesmas. É um conceito que o cinema, a literatura e, principalmente, as animações já exploraram inúmeras vezes, ainda assim, existe algo interessante na maneira como o filme transforma essa premissa em uma reflexão sobre aquilo que talvez seja uma das maiores contradições do amor: amar alguém nem sempre significa poder permanecer com essa pessoa.

E talvez seja justamente aí que o filme encontre sua maior força.

Estamos acostumados a histórias em que o amor é apresentado como uma espécie de prêmio. Depois de todos os obstáculos, os personagens finalmente ficam juntos e o mundo parece entrar nos eixos. É uma fórmula bonita, mas também confortável. Separados pelas Estrelas parece interessado em fazer uma pergunta menos confortável: será que todo amor precisa terminar em permanência para ter sido verdadeiro?

A animação brinca com essa ideia de destino de uma maneira bastante interessante. Se existem forças maiores determinando os caminhos das pessoas, até onde vão nossas escolhas? Somos realmente livres para escolher quem amar, ou algumas pessoas simplesmente atravessam nossa vida porque precisavam atravessá-la?

Talvez o amor seja justamente essa contradição. Nós queremos acreditar que escolhemos quem amamos, mas, ao mesmo tempo, quando encontramos alguém que realmente nos transforma, é difícil acreditar que aquele encontro tenha sido apenas uma coincidência.

E o filme trabalha bem com essa sensação.

Há algo quase melancólico na ideia de duas pessoas que podem se amar profundamente e, ainda assim, não conseguirem vencer aquilo que existe ao redor delas. Não porque o sentimento seja insuficiente, mas porque a vida nem sempre recompensa aquilo que sentimos.

Essa é uma das coisas que mais gosto na proposta do filme: ele não trata o amor apenas como conquista. Trata também como experiência.

Algumas pessoas chegam às nossas vidas para ficar. Outras chegam para nos modificar. E existem aquelas que permanecem conosco justamente porque, mesmo depois de partirem, deixaram alguma coisa que não conseguimos abandonar.

Nesse sentido, o filme fala menos sobre encontrar "a pessoa certa" e mais sobre compreender o significado de encontrar alguém.

E isso é uma diferença importante.

A animação também merece reconhecimento por tentar fazer algo novo em um momento em que parece que já vimos quase tudo. Histórias de amor já foram contadas de todas as formas possíveis. Histórias sobre destino também. Viagens, mundos fantásticos, encontros impossíveis e romances proibidos fazem parte da própria história da animação.

O desafio, então, não é necessariamente inventar um conceito que nunca existiu. Isso talvez seja impossível. O verdadeiro desafio é pegar ideias antigas e reorganizá-las de uma maneira que ainda consiga despertar alguma coisa no espectador.

E o filme consegue fazer isso em alguns momentos justamente porque utiliza a fantasia como ferramenta para falar de sentimentos bastante humanos.

As estrelas, o destino e toda a construção fantástica não existem apenas para criar um universo bonito. Eles funcionam como metáforas para aquilo que não conseguimos controlar. Há coisas na vida que estão além da nossa vontade. Podemos lutar, insistir, esperar e desejar, mas nem sempre conseguimos mudar o caminho que se apresenta diante de nós.

E aceitar isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de aprender.

O problema é que nem tudo funciona perfeitamente.

Apesar de possuir uma proposta interessante e de conseguir fugir um pouco da estrutura tradicional das histórias românticas, o filme também apresenta momentos em que parece confiar demais na própria ideia. Algumas situações poderiam ter sido melhor desenvolvidas, principalmente quando pensamos na relação entre os personagens e na profundidade de determinadas escolhas.

Existe uma diferença entre contar uma história simples e contar uma história superficial. Muitas vezes o filme encontra a simplicidade que procura, mas em alguns momentos acaba deixando certas questões importantes apenas na superfície.

Ainda assim, talvez seu maior mérito esteja justamente naquilo que fica depois dos créditos.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas "eles vão ficar juntos?".

A pergunta é: "o que significa amar alguém quando ficar junto não é uma possibilidade?"

E essa pergunta é muito mais interessante.

Talvez porque amar seja, em certa medida, aceitar que não temos controle sobre tudo. Não podemos obrigar alguém a permanecer. Não podemos determinar o momento em que uma pessoa vai entrar em nossa vida. Não podemos garantir que um relacionamento vai durar para sempre.

Podemos apenas viver aquilo enquanto ele existe.

E talvez seja isso que as estrelas do título representem tão bem. Elas estão distantes, parecem próximas quando olhamos para o céu, mas existe uma imensidão entre elas. Ainda assim, continuamos olhando.

Porque algumas distâncias não diminuem a importância de um encontro.

Claro que não é uma obra perfeita e provavelmente não pretende reinventar completamente as histórias de amor. Mas consegue algo talvez mais importante: pegar elementos que já conhecemos e utilizá-los para falar de uma coisa que continua sendo impossível de explicar completamente.

O amor.

No final, talvez algumas pessoas sejam como estrelas. A gente não consegue alcançá-las, não consegue segurá-las e, às vezes, nem consegue permanecer perto delas. Mas isso não significa que sua existência tenha sido inútil.

Algumas pessoas passam pela nossa vida para nos ensinar que amar também pode significar deixar ir.

E talvez, entre todas as histórias sobre destino que já foram contadas, essa seja uma das mais bonitas: entender que nem todo encontro precisa durar para sempre para ter valido a pena.

Às vezes, algumas pessoas simplesmente estão separadas pelas estrelas.

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