
Terminei Witch Hat Atelier e, desde então, uma ideia não sai da minha cabeça:
Qifrey é o verdadeiro vilão dessa história.
Talvez seja uma afirmação exagerada e eu só esteja sendo maluco já que não li o mangá, talvez eu esteja interpretando tudo errado. Mas quanto mais penso no que assisti, mais essa possibilidade parece fazer sentido.
E acho que o mais interessante em Witch Hat Atelier é justamente isso. É uma história que, à primeira vista, parece muito simples. Existe uma magia proibida, existem pessoas que conhecem essa magia e existem aqueles que tentam impedir que esse conhecimento se espalhe.
Só que, quando você para para olhar com um pouco mais de atenção, talvez a pergunta não seja "quem está certo?", mas sim:
Quem decidiu que esse conhecimento deveria ser proibido?
Os chapéus com aba são apresentados como aqueles que ultrapassam os limites estabelecidos. São perigosos. São pessoas que utilizam uma magia que não deveria existir, que mexem com coisas que foram determinadas como proibidas, só por fazer a mesma magia só que de maneira diferente, ou potencializar no corpo por exemplo.
Mas... por quê?
Por que são realmente malignos?
Ou por que estão tentando devolver ao mundo um conhecimento que um dia pertenceu a todos?
É aí que Qifrey começa a me incomodar.
Ele é um personagem extremamente carismático e trás tudo que um personagem confiável tem que ser: É gentil, inteligente, paciente e, principalmente, parece genuinamente preocupado com Coco e com os outras aprendizes. É muito fácil gostar dele.
Talvez fácil demais.
Porque Qifrey sabe muito mais do que conta.
Ele conhece a história por trás da magia proibida. Conhece os chapéus com aba. Conhece os perigos daquele mundo. E, ainda assim, existe uma coisa que parece cada vez mais clara: ele não está simplesmente tentando proteger o mundo.
Ele também está tentando proteger os próprios interesses.
E isso muda completamente a maneira como eu enxergo o personagem, principalmente depois do episódio que ele apaga as memorias do velho lá.
Porque existe uma diferença enorme entre impedir alguém de usar um conhecimento porque esse conhecimento é perigoso e impedir alguém de usar esse conhecimento porque você tem medo do que pode acontecer quando ele deixar de estar sob seu controle.
E talvez seja justamente essa segunda opção que esteja acontecendo.
Os chapéus com aba podem ser criminosos. Podem ser pessoas perigosas, podem realmente colocar vidas em risco.
Mas também podem ser pessoas que olharam para um mundo onde o conhecimento mágico foi cuidadosamente trancado atrás de regras e decidiram que aquilo não era aceitável, OK eu sei que eles também não se ajudam, causando todo tipo de caos possível e fazendo aquilo horrível com o menino no final do ultimo episódio da primeira temporada
E isso me faz pensar em uma coisa que Witch Hat Atelier parece perguntar o tempo inteiro:
Quem tem o direito de decidir o que as outras pessoas podem conhecer?
Porque conhecimento, quando é proibido, deixa de ser apenas conhecimento.
Ele vira poder.
E quem controla o conhecimento passa a controlar quem pode ter esse poder.
É impossível não olhar para Qifrey sob essa perspectiva.
Ele ensina magia.
Ele transmite conhecimento.
Ele decide o que Coco pode aprender e o que ela ainda não está preparada para saber.
E, ao mesmo tempo, ele faz parte de uma estrutura que determina quais conhecimentos podem existir e quais devem desaparecer.
A ironia é enorme.
Qifrey parece estar libertando Coco através do conhecimento, enquanto, ao mesmo tempo, participa de um sistema que limita esse mesmo conhecimento.
Talvez seja por isso que os chapéus com aba me chamem tanto a atenção.
Porque eles podem representar justamente o oposto.
Eles não necessariamente querem destruir a magia só os outros bruxos kkkk
Talvez queiram devolvê-la ao mundo.
E isso é muito mais interessante do que simplesmente dizer que eles são os vilões.
É claro que existe um problema enorme nisso tudo: conhecimento também pode ser perigoso.
Uma magia capaz de curar alguém pode também matar.
Uma magia capaz de transformar alguma coisa pode destruir outra.
E talvez as regras existam por uma razão.
Mas é aí que a história fica realmente interessante.
Porque uma boa intenção não transforma automaticamente uma proibição em algo justo.
E uma revolução também não transforma automaticamente quem está revolucionando em herói.
Talvez os chapéus com aba estejam errados em algumas coisas.
Talvez Qifrey esteja certo em outras.
Talvez os dois lados estejam tentando controlar o mesmo conhecimento por motivos diferentes.
E talvez seja justamente isso que faça Qifrey ser tão assustador.
Ele não precisa ser um vilão que quer destruir o mundo.
Ele pode ser algo muito pior:
Alguém que acredita estar fazendo a coisa certa.
E talvez o maior egoísmo dele esteja justamente aí.
Qifrey quer proteger as pessoas, mas também quer controlar o que elas podem saber, quer impedir que determinados conhecimentos voltem a existir porque sabe o que pode acontecer se eles forem recuperados.
Mas também existe uma questão pessoal nisso.
Ele tem seus próprios motivos.
Suas próprias feridas.
Sua própria obsessão.
E, quando alguém toma decisões sobre o futuro de todo um mundo baseado nas próprias dores, talvez seja impossível continuar chamando isso simplesmente de proteção.
Talvez seja vingança.
Talvez seja medo.
Talvez seja egoísmo.
Ou talvez seja tudo isso ao mesmo tempo.
E é por isso que terminei o anime com essa sensação estranha.
Eu não consigo simplesmente olhar para os chapéus com aba e pensar "eles são os vilões".
Porque, quanto mais a história mostra sobre aquele mundo, mais eu começo a questionar quem realmente está mantendo as pessoas seguras e quem está apenas mantendo as pessoas ignorantes.
E talvez essa seja a grande genialidade do anime
A história não parece interessada em entregar respostas fáceis.
Ela fala sobre magia, mas talvez esteja falando muito mais sobre conhecimento.
Sobre quem pode aprender.
Sobre quem pode ensinar.
Sobre quem decide o que deve ser esquecido.
E sobre o que acontece quando alguém olha para uma regra e pergunta:
"Mas por quê?"
Coco fez essa pergunta sem querer.
Os chapéus com aba fizeram essa pergunta conscientemente.
E Qifrey talvez tenha passado a vida inteira tentando impedir que essa pergunta fosse respondida.
Por isso, depois de terminar o anime, uma coisa continua martelando na minha cabeça:
E se Qifrey não estiver tentando impedir os vilões?
E se ele estiver tentando impedir que o mundo descubra que talvez os vilões nunca tenham sido os verdadeiros vilões?
Eu não sei se Qifrey é, de fato, o grande vilão de Witch Hat Atelier.
Mas, sinceramente?
Depois desse anime, eu já não consigo olhar para ele do mesmo jeito.
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