Fã de Jujutsu odeia a Maki

 



E vamos falar sobre a nova temporada de Jujutsu Kaisen e como inevitavelmente tivemos um ponto que dividiu muita gente: o arco da Maki. Não só pelo que acontece, mas principalmente pelo que ela decide fazer. A destruição do clã Zenin, nas mãos de uma personagem que sempre foi tratada como resto dentro da própria família, incomodou parte do público. E esse incômodo diz muito mais sobre a gente do que sobre a obra.


Desde o início, Maki nunca foi construída para ser confortável. Ela nasce em um sistema que a rejeita, a diminui e a usa como exemplo do que não se deve ser. Mulher, sem energia amaldiçoada, vista como fracasso. Tudo ao redor dela diz que seu lugar é abaixo. A obra nunca escondeu isso. Pelo contrário, fez questão de esfregar essa estrutura na cara do espectador.


Quando a nova temporada chega e mostra o resultado de anos de violência simbólica e literal, muita gente reage com estranhamento. De repente, Maki deixa de ser a personagem “inspiradora que luta apesar das limitações” e passa a ser alguém que age com raiva, brutalidade e decisão. Ela não pede permissão. Não busca redenção. Não tenta ser compreendida.


E é aí que mora o problema para alguns fãs que não conseguem entender o lado humano da personagem.


Existe uma expectativa silenciosa de que personagens femininas fortes ainda precisem ser moralmente aceitáveis o tempo todo. Que a dor delas precise ser filtrada, suavizada, transformada em algo palatável. Quando Maki rompe com isso e age como muitos personagens masculinos sempre agiram em shounens, o discurso muda. De repente, ela é “exagerada”, “mal escrita”, “incoerente”.


Mas será mesmo? Que ela é esse ser tão "desprezível" 


O arco da Maki não é sobre vingança simples. É sobre ruptura. Sobre o colapso de um sistema inteiro que sempre se sustentou na exclusão. O clã Zenin não é destruído apenas fisicamente, ele é desmontado simbolicamente. A obra deixa claro que aquele clã já estava podre muito antes da Maki erguer a primeira arma.


O que incomoda não é a violência em si. A história sempre foi violenta. O incômodo surge quando essa violência vem de uma mulher que não está ali para ensinar uma lição bonita ou servir de apoio emocional para outro personagem. Ela é o centro da ação. Ela é a consequência.


E isso é poderoso.


O empoderamento feminino, quando tratado de forma honesta, nem sempre é inspirador no sentido clássico. Às vezes ele é feio, doloroso, radical. Às vezes ele não vem acompanhado de discursos, mas de escolhas difíceis e irreversíveis. Maki não representa um ideal, ela representa uma reação. E reações raramente são limpas.


A nova temporada acerta ao não pedir desculpas por isso. Ao não tentar justificar cada passo da personagem com longos monólogos morais. A obra confia no espectador para entender que aquela não é uma história sobre heroísmo puro, mas sobre sobrevivência em um mundo quebrado.


Personagens como Maki são importantes justamente porque quebram expectativas. Elas mostram que mulheres também podem ocupar espaços narrativos tradicionalmente reservados a homens: o da fúria, da violência, da decisão sem consenso. E isso não precisa ser confortável para ser válido.


Talvez o desconforto de alguns fãs seja um sinal de que a obra tocou em algo real. Porque quando uma personagem feminina deixa de ser símbolo e passa a ser sujeito, com tudo o que isso implica, nem todo mundo está pronto para acompanhar.


E tudo bem se não estiver.

Mas a história segue.

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