E li Academia Arcana de Elise Kova e olha...



Existe algo curioso nas histórias de fantasia sobre academias de magia. Talvez porque, depois de tantos livros, filmes e séries, seja difícil imaginar uma escola de magia sem imediatamente lembrar de Harry Potter, o que é de longe uma obra prima e deveria sequer ser exemplo disso, mas que tem já entranhado no universo pop como alguém marcante. E toda essa ideia de jovens aprendendo a dominar poderes, descobrindo segredos, fazendo amizades e enfrentando perigos dentro de uma instituição mágica já se tornou quase um subgênero próprio.

E por causa disso que Academia Arcana me chamou atenção. 

O livro não parece interessado apenas em repetir a fórmula que já conhecemos, ele tenta encontrar seu próprio caminho dentro dela, misturando elementos tradicionais da fantasia com uma abordagem mais adulta e, em alguns momentos, bastante diferente daquilo que normalmente encontramos nesse tipo de história.

E talvez o mais interessante seja justamente perceber que o livro funciona melhor quando tenta ser diferente, já que toda magia gira em torno de cartas de tarot, trazendo uma ideia inovadora.

O livro utiliza vários elementos que não são exatamente novo. Temos: magia, uma instituição dedicada ao seu ensino, personagens descobrindo seus poderes, relações entre os estudantes e os inevitáveis conflitos que surgem quando pessoas diferentes são colocadas dentro do mesmo ambiente.

A academia deixa de ser apenas um cenário bonito para colocar personagens mágicos juntos. Ela funciona como parte importante da experiência dos personagens, permitindo que a autora explore não apenas a magia, mas também as relações de poder, as inseguranças, os desejos e as consequências de viver em um mundo onde aquilo que para nós seria impossível é simplesmente parte da realidade.

Em muitas histórias do gênero, a magia existe simplesmente porque é necessário que exista. O leitor aceita suas regras e segue em frente, já nesse livro existe uma tentativa maior de fazer com que esse universo tenha suas próprias particularidades.

Nem sempre funciona perfeitamente, mas é justamente essa tentativa que torna o livro interessante.

Por outro lado, existe uma armadilha quando um autor tenta fugir demais do que já conhece.

Às vezes, a obra parece tão preocupada em mostrar que não é "mais uma fantasia" que acaba se afastando justamente daquilo que poderia torná-la mais consistente.

O livro apresenta boas ideias, mas nem todas recebem o desenvolvimento que mereciam. Algumas parecem surgir com grande potencial e depois acabam ficando em segundo plano, enquanto outras recebem uma atenção que nem sempre parece proporcional à sua importância para a história.

É como se existisse uma quantidade enorme de ideias interessantes dentro do livro, mas nem sempre houvesse espaço suficiente para que todas respirassem. E isso acaba afetando principalmente o desenvolvimento dos personagens.

Porque uma boa fantasia não precisa apenas de um mundo interessante. Ela precisa fazer com que o leitor se importe com as pessoas que vivem nele.

E essa é uma das coisas que mais gosto em histórias de fantasia, a magia pode ser maravilhosa, o mundo pode ser gigantesco, podemos ter criaturas, poderes, escolas, reinos e tudo aquilo que a imaginação conseguir criar.

Mas, no fim, queremos saber o que acontece com aquelas pessoas.

Em alguns momentos, o livro até consegue fazer isso muito bem. Existem relações que despertam curiosidade e personagens que conseguem carregar a narrativa justamente porque parecem ter conflitos que vão além daquilo que está acontecendo superficialmente.

Em outros, entretanto, existe uma sensação de que determinados personagens poderiam ter sido muito mais explorados, quando uma história nos mostra uma possibilidade interessante e não a desenvolve completamente, ficamos com aquela sensação de "poderia ter sido melhor". Não necessariamente porque aquilo que recebemos seja ruim, mas porque conseguimos enxergar aquilo que a história poderia ter se tornado.

Mas agora vamos para o porque eu decidi falar sobre esse livro aqui e provavelmente, minha maior crítica ao livro.

Não tenho nenhum problema com histórias de fantasia que tenham romance, erotismo ou personagens adultos vivendo sua sexualidade.

A questão não é essa.

O problema é quando o conteúdo sexual parece existir mais por obrigação do que por necessidade narrativa.

E é exatamente essa sensação que tive com algumas das cenas mais explícitas próximas ao final.

Depois de acompanhar toda uma história de fantasia, personagens, conflitos e construção de mundo, o livro começa a dedicar uma atenção bastante grande a cenas sexuais que, para mim, não acrescentam na mesma proporção à narrativa.

E tem livros que até faz sentindo, você entende o porque dos personagens começarem a se pegar, já que está um certo tempo criando uma situação assim, mas no caso de Academia Arcana, várias vezes isso claramente foi forçado, eu não consegui enxerga essa química entre a nossa protagonista e o grande vilão que o livro tentou pintar boa parte dele, pra chegar no final e dizer "ah ele não é vilão", sendo que no meio do livro eu já tinha entendido isso.

E sabe o problema fica ainda maior porque essas cenas aparecem quando a história já deveria estar caminhando para a resolução de seus conflitos. O ritmo que vinha sendo construído acaba sofrendo uma interrupção justamente quando eu esperava que o livro estivesse concentrado em suas questões mais importantes.

E por favor, não é uma questão de puritanismo.

É uma questão de narrativa.

Se eu estou lendo uma fantasia porque quero conhecer aquele mundo, acompanhar aqueles personagens e descobrir onde toda aquela história vai chegar, quero que cada capítulo tenha algum propósito.

Se uma cena sexual existe, ela precisa me dizer alguma coisa, caso contrário, ela é apenas uma pausa.

E uma pausa totalmente desnecessária.

O livro é bom, a história é boa, tem um mistério que deveria ser solucionado ou pelo menos entregar um gancho interessante pro segundo livro o que é obvio que iria ser escrito, mas o livro se perdeu no final, entregou uma situação chata e eu achei bem fraco como tentaram correr pra explicar as coisas. 

Eu queria saber mais sobre as magias, mas sobre o tarot, saber mais sobre o universo e não ficar lendo cenas de sexo só porque ambos personagens não conseguem segurar o tesão. 

Posso está sendo totalmente chato, mas o livro vacilou nesse quesito, o que me faz perde totalmente interesse em ler o segundo. 

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