O final de Stranger Things não foi exatamente ruim, mas também não foi o que muita gente esperava, e talvez seja aí que tudo começou a dar errado.
Durante anos, a série foi tratada como mais do que uma história. Ela virou memória afetiva, trilha sonora da adolescência tardia de muita gente, refúgio em tempos estranhos. Cada temporada vinha carregada de nostalgia, mistério e a promessa silenciosa de que tudo aquilo levaria a um encerramento grandioso, inesquecível, quase histórico.
A internet ajudou a inflar isso. Teorias, expectativas, comparações, apostas emocionais. O final precisava ser perfeito, e quando algo precisa ser perfeito, quase sempre já nasce condenado.
Quando a série terminou, o que se viu foi uma divisão clara. De um lado, pessoas satisfeitas, emocionadas, gratas pela jornada. Do outro, gente frustrada, decepcionada, sentindo que algo faltou. Não necessariamente um evento específico, mas um impacto. Um risco maior, um fechamento que doesse mais.
Talvez o problema não tenha sido o final em si, mas o que projetamos nele. Stranger Things sempre flertou com o conforto, mesmo quando lidava com o horror, havia ali uma zona segura. Personagens queridos, trilhas conhecidas, referências que abraçavam o espectador. E no fim, a série permaneceu fiel a isso, não traiu sua essência, só que, para muitos, isso já não bastava.
Existe uma expectativa estranha de que finais precisam ser disruptivos, chocantes, quase traumáticos, para serem bons, se não desmontam tudo, se não ferem profundamente, parecem insuficientes. Mas também existe o outro lado. Às vezes, encerrar é apenas isso: fechar um ciclo sem destruir o que foi construído.
A internet, como sempre, amplificou tudo, gostar virou sinal de ingenuidade. Não gostar virou sinônimo de inteligência crítica. E no meio disso, se perdeu algo simples: nem todo final precisa agradar a todos. Algumas histórias terminam do jeito que conseguem, não do jeito que prometemos a nós mesmos que elas terminariam.
Talvez Stranger Things tenha terminado exatamente como viveu. Entre o medo e o afeto. Entre o caos e a familiaridade. E talvez a frustração venha do fato de que crescemos enquanto a série crescia, e esperávamos que ela acompanhasse nossas dores adultas com a mesma intensidade.
No fim, não é só sobre uma série. É sobre expectativa. Sobre apego. Sobre o momento em que percebemos que certas histórias significaram mais para nós do que para elas mesmas.
E isso dói um pouco. Mas também diz muito sobre quem somos agora.

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