Quando anunciaram a nova série de Percy Jackson pela Disney, confesso que minha primeira reação não foi empolgação, foi desconfiança. Os filmes ainda pesam na memória de quem leu os livros. Não porque eram totalmente ilegíveis, mas porque pareciam não entender o que Percy Jackson realmente era. Eles envelheceram os personagens, simplificaram conflitos e transformaram uma jornada de amadurecimento em algo genérico, apressado e vazio de sentido.
A série chega como quem pede desculpa sem dizer nada. E talvez o maior acerto esteja justamente aí.
Desde a primeira temporada, que adapta o livro: O Ladrão de Raios, fica claro que agora existe tempo. Tempo para os personagens respirarem, para os laços se formarem e para o mundo mitológico não parecer apenas um pano de fundo cheio de efeitos. Diferente do filme, que corre para chegar ao final, a série entende que a graça da história está no caminho, nas dúvidas, nos erros e no fato de Percy não saber exatamente quem ele é ou onde se encaixa.
Um ponto que chama atenção é como a série se aproxima muito mais do espírito do livro, mesmo quando muda coisas. A essência está ali: o humor meio torto, a sensação constante de perigo, a ideia de que crescer também é lidar com deuses falhos e adultos que erram. Ao mesmo tempo, a narrativa televisiva permite algo que o livro, por ser em primeira pessoa, não faz tanto: sair da cabeça do Percy.
Na série, não acompanhamos apenas o que ele sente ou pensa. Vemos Annabeth como alguém que carrega expectativas, frustrações e uma inteligência que não é só “a garota inteligente do grupo”. Grover deixa de ser apenas o alívio cômico e ganha profundidade emocional, conflitos próprios e um senso de responsabilidade que pesa. Até personagens secundários passam a ter mais espaço, mais intenção, mais história. Eles não estão ali apenas para cumprir função de roteiro.
A segunda temporada, adaptando O Mar de Monstros, aprofunda ainda mais isso. Os conflitos deixam de ser apenas externos. Não é só derrotar monstros ou impedir o fim do mundo, mas lidar com inseguranças, com a sensação de não ser suficiente, com a comparação constante. A série entende que Percy Jackson nunca foi apenas sobre mitologia grega, mas sobre crescer se sentindo deslocado, confuso e pressionado a ser algo que você ainda não sabe se consegue ser.
Comparando com os filmes, a diferença é quase injusta. Onde os filmes cortavam personagens, simplificavam relações e mudavam motivações inteiras, a série faz o caminho oposto. Ela confia no material original e no público. Não tenta apressar tudo, nem transformar Percy em um herói pronto. Ele continua errando, duvidando, tropeçando, como sempre foi nos livros.
Claro, nem tudo é idêntico às páginas. Algumas escolhas narrativas são diferentes, cenas são reorganizadas, certos momentos ganham outro peso. Mas, ao contrário dos filmes, essas mudanças parecem pensadas para expandir, não para apagar. Elas funcionam como ajustes naturais de uma história que agora entende o meio em que está sendo contada.
Talvez o maior mérito da série seja esse: ela não tenta consertar Percy Jackson, porque ele nunca esteve quebrado. Ela apenas oferece o espaço certo para que a história seja contada com cuidado.
No fim, assistir à série dá a sensação de que Percy finalmente encontrou um lar fora dos livros. Não perfeito, não intocável, mas honesto. E às vezes é só isso que uma boa adaptação precisa ser.

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