É sensacional como alguns animes conseguem, do começo ao fim, manter a gente preso não só pela ação ou pelo impacto visual, mas pelo incômodo que deixam. Gachiakuta é exatamente assim. A obra vai avançando, responde algumas perguntas importantes, mas nunca parece satisfeita em encerrar nada de vez. Quando uma resposta chega, ela quase sempre vem acompanhada de novas dúvidas, novos mistérios e aquela sensação de que ainda estamos vendo só a superfície de algo muito maior.
E isso não é um defeito. Muito pelo contrário.
Já falei sobre Gachiakuta aqui no blog antes, destacando vários pontos positivos e como a obra conseguiu mexer com a forma como muita gente passou a enxergar animes e mangás. O impacto não vem apenas do traço diferente ou da estética suja e agressiva, mas da maneira como o mundo é construído. Tudo ali parece quebrado, descartado, jogado fora, e ainda assim vivo. O mangá já carregava esse peso desde o início, e a adaptação em anime só reforça o quanto essa história sabe usar o desconforto como linguagem.
O universo de Gachiakuta não se explica de imediato, e talvez nunca se explique por completo. Ele se revela aos poucos, em fragmentos, quase como se o espectador estivesse juntando restos, pedaços de informação espalhados pelo caminho. Existe um prazer estranho nisso, em não entender tudo, em ter que parar e pensar, em levantar teorias que talvez nunca sejam confirmadas. Em tempos em que muitas obras parecem ter medo do silêncio e da dúvida, Gachiakuta aposta justamente nisso.
Os mistérios não estão só no funcionamento do mundo ou nos poderes que surgem, mas também nos personagens. Eles carregam marcas, traumas e contradições que não são explicadas em longos discursos. Muitas coisas ficam subentendidas, ditas no olhar, no jeito de agir, no silêncio. É uma narrativa que confia em quem está do outro lado da tela, que entende que nem tudo precisa ser explicado para ser sentido.
E talvez seja por isso que Gachiakuta funcione tão bem. Porque ele não tenta ser confortável. Ele não quer agradar todo mundo, nem ser fácil de consumir. É uma obra que incomoda, provoca e, às vezes, até cansa. Mas é um cansaço bom, daquele que vem quando a história fica na cabeça depois que o episódio termina.
Existe algo muito honesto em uma obra que aceita não ter todas as respostas prontas. Gachiakuta parece entender que o mistério também faz parte da experiência humana, que nem tudo na vida se resolve de forma clara ou justa. Às vezes, a gente só segue em frente carregando perguntas, tentando dar sentido ao que sobrou.
No fim, assistir a Gachiakuta é isso: caminhar por um mundo feito de restos, tentando montar algum significado a partir do que foi descartado. E talvez seja exatamente por isso que a obra diga tanto sobre nós. Porque, de certa forma, todos nós também estamos tentando entender quem somos a partir dos pedaços que ficaram pelo caminho.

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