Ano novo, mas a vida é a mesma



2026 acabou de chegar. Mais um ano começa, trazendo com ele a sensação de que algo precisa mudar. As pessoas costumam acreditar que a virada do calendário carrega novas promessas: novos desafios, novas vivências, novas experiências. E eu confesso que também gosto de acreditar nisso, nem que seja por um instante.


Mas a verdade é que a vida não recomeça junto com o ano. Ela continua. Acorda no dia seguinte como sempre acordou. Não são apenas os boletos que seguem existindo depois da virada; os conflitos internos, as dúvidas e as batalhas silenciosas também permanecem. Ainda há muito sendo vivido agora, mesmo quando a gente finge que tudo começa do zero.


O ano virou, mas a luta contra o meu eu interior continua. Meu id ainda precisa ser contido em alguns momentos, enquanto meu superego não pode agir como se tudo fosse impulsividade ou cobrança excessiva. Existe um espaço frágil entre querer demais e se exigir além do limite; e é exatamente ali que eu costumo me perder.


Tenho aprendido que preciso enxergar meus erros e falhas, não para me punir, mas para não cair outra vez nos mesmos abismos. Ao mesmo tempo, preciso aprender a me cobrar menos. Como minha psicóloga costuma me lembrar e sou muito grato por estar em terapia a compaixão também precisa ser direcionada para dentro. Reconhecer os avanços, por menores que pareçam, é uma forma de continuar em pé.


Então, sim, o ano começou. Mas a vida é a mesma vida: imperfeita, contínua e, às vezes, cansativa. Ainda assim, ela precisa ser vivida. Não existe atalho para isso. Como escreveu Clarice Lispector, “viver ultrapassa todo entendimento”. Talvez seja exatamente por isso que seguimos tentando, mesmo sem compreender tudo.


Pode parecer uma reflexão melancólica. Talvez seja mesmo. Mas é sincera. E, às vezes, tudo o que a gente precisa no início de um novo ano é isso: dizer em voz baixa aquilo que estava pesado demais para continuar guardando.

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